Viajando com gatos para a União Europeia

Após decidirmos mudar de país, veio a maior preocupação de todas: e os gatos? Bastaram alguns segundos pensando na nossa vida sem eles para os olhos encherem de lágrimas, o coração apertar e a gente ter certeza que não conseguiria deixá-los pra trás de jeito nenhum. Ou vai todo mundo, ou não vai ninguém.

O post será imenso, então ao final coloquei um checklist com o passo a passo para facilitar a vida de quem está se preparando para encarar essa aventura com bichinhos. ;)

Documentação e preparação

Feita a decisão de levar os quatro, começamos a pesquisar sobre a política de entrada de animais na União Europeia (UE), que está entre as mais chatinhas (acho que só perde pra Reino Unido, Japão e outras ilhas). Simplificando muito, é necessário: microchipar o animal, vacinar contra raiva, fazer um exame para confirmar que o animal tem anticorpos suficientes para raiva (30 dias após vacinar), e iniciar a quarentena de 3 meses após a sorologia. Exatamente nessa ordem – não importa se o bichinho foi vacinado 1 mês antes de colocar o microchip, por exemplo.

Então já fica a primeira dica valiosa: se você estiver pensando em viajar com seus animais, a primeira coisa a fazer é colocar microchip.

Nesse processo todo para a UE, que dura em média quatro meses, há várias outras burocracias, como garantir que o animal tenha um microchip padrão internacional e um certificado com adesivo do microchip + adesivo na carteira de vacinação, fazer a coleta do sangue e levar imediatamente até o laboratório autorizado pela UE para realizar a sorologia (em São Paulo é o CCZ – Laborátorio de Zoonoses e Doenças Transmitidas por Vetores), obter um atestado veterinário comprovando que o animal está apto a viajar e levar toda essa documentação (sorologia, carteira de vacinação, atestado – que só vale por 3 dias após emitir, comprovante de microchip) até a Vigiagro para emitir o CZI – Certificado Zoosanitário Internacional – que é, basicamente, o documento mais importante da galáxia pra quem quer viajar com os pets. Ah, e o CZI é válido por dez dias após a emissão, então é emitir e viajar. Tenso, né?

O serviço de assessoria sai mais caro do que fazer tudo por conta, especialmente levando mais de um animal, mas eles dão todo o suporte necessário: foram até em casa para colocar o microchip e vacinar, checaram se as vacinas estavam em dia, fizeram análise clínica dos gatinhos, coletaram o sangue e levaram até o laboratório, correram atrás de toda a papelada até emitir o CZI alguns dias antes da viagem, e ainda deram suporte na hora de escolher as caixas de transporte, treinar os gatinhos para o voo e solicitar o lugar na aeronave. Como eu e o Shiota ainda estávamos trabalhando e dificilmente teríamos tanto tempo livre pra ficar correndo atrás dos detalhes, especialmente considerando que era uma mudança de país e teríamos muitos outros assuntos e burocracias pra resolver, preferimos contratar uma assessoria de transporte de animais. Pesquisamos algumas na internet e chegamos na FlyingPet.

Outra parte boa de contratar a assessoria: eles já sabem tudo o que precisa para a Vigiagro autorizar o CZI, então os riscos de cair na malha fina burocrática desse processo diminuem muito. Eles também já sabem quais são as cias aéreas mais aptas a transportar os pets e suas políticas de transporte de animais – e se não souberem de alguma específica, correm atrás dessas informações por você. Agora o governo brasileiro oferece passaporte para pets, mas não sei como isso ajudará nesse processo.

Como levar animais para a União Européia

Adquirimos 2 caixas de transporte rígidas Vari Kennel da Petmate para o porão e 2 bolsas de transporte de material flexível para a cabine. Durante a quarentena, deixamos as caixas e bolsas espalhadas pela casa para os gatinhos entrarem, dormirem e comerem dentro, assim iam se acostumando a ficar lá dentro. Para as caixas que seriam despachadas, compramos também 2 bebedouros para roedores, que foram presos na grade da caixa (veja na foto acima), assim eles teriam água disponível durante o voo. Embaixo dos bebedouros, também na grade, posicionamos os potinhos para alimento/água que já vieram com a caixa, para segurar qualquer respingo. Por segurança, antes do embarque colocamos duas abraçadeiras de nylon na grade das caixas, na parte superior e inferior, assim garantimos que a porta não abriria de jeito algum durante o voo.

» Sobre sedativos e calmantes

Com a KLM, na época de nossa viagem, os animais não podem ser sedados, mas a política das outras cias aéreas pode ser diferente. Com a pressurização da cabine e do porão, podem ocorrer mudanças na respiração do seu bichinho (como hiperventilação) que podem vir a comprometer o bem estar dele. Também é fundamental que os animais estejam alerta, prontos para reagirem caso seja necessário (uma turbulência mais forte pode sacudir um animal sedado ou dopado dentro da caixa de transporte, por exemplo). Em alguns casos é permitido dar um calmante leve só pra deixá-los mais tranquilos, mas sempre verifique esses detalhes com seu veterinário e com a cia aérea escolhida antes de tomar qualquer decisão, pois algumas não permitem nem isso. Lembrando que raças com nariz achatado (persas, exotic shorthairs, pugs, bulldogs, etc) podem ter algumas restrições para voar, algumas vezes sendo até proibidas. Obrigada, Lia, por fazer essa pergunta! <3

» Sobre limites de peso e animais por passageiro

Há um limite de peso do animal + bolsa de transporte para levá-los na cabine, que geralmente varia de 6 a 10kg. Caso ultrapasse esse limite estabelecido pela cia. aérea, o animal só pode viajar no porão (in hold). A KLM permitia cada passageiro levar até 3 animais, porém há um limite físico de animais em cada voo, tanto na cabine quanto no porão – isso para todas as cias aéreas. Por isso é tão importante comprar a passagem e fazer a reserva dos pets com antecedência, para garantir que ainda terá lugar no voo para todos.

» Sobre transporte como carga viva (manifest cargo)

Essa modalidade é usada quando o dono já está morando fora e precisa despachar o animal totalmente desacompanhado – ou seja, sem um passageiro pagante no mesmo avião. Infelizmente não sei exatamente como é o processo para envio como carga viva, só ouvi dizer que é muito mais caro e complexo, então vale a pena entrar em contato com um despachante aduaneiro para facilitar o processo – ou com o pessoal da FlyingPet, que também faz esse serviço. Tem mais algumas informações sobre essa modalidade neste link. Se você já mudou e quer trazer um bichinho que ficou, já prepare o bolso pra gastar uma boa grana com as taxas de transporte de carga viva.

Reserva das passagens e check-in

Documentação em mãos, passagens compradas… e chegou a segunda parte crucial: conseguir a reserva para quatro animais com a cia. aérea. Voamos de KLM, referência em cuidados e transporte com animais, mas ainda assim tivemos alguns desencontros de informação.

Reservamos dois pets na cabine e dois pets in hold (no porão), mas só foram confirmados os animais no porão e não os da cabine, sem motivo aparente. Entramos em contato e nos disseram que as dimensões da mochila de transporte estavam fora dos padrões (sendo que não estavam). Passamos a medida exata permitida e informada no site da KLM (30x40x20cm), e pelo telefone falaram que deveria ser 28x40x20cm.

Enviamos uma nova solicitação com as medidas do segundo padrão estipulado, e autorizaram algumas horas depois. Agora pensa que tudo isso aconteceu entre 5 e 1 dia antes da viagem, hahah. Sobre o tamanho da bolsa de transporte para a cabine: não tem problema ser alguns (poucos) centímetros maior do que o padrão exigido, eles dificilmente medem. É extremamente difícil encontrar bolsas de transporte nessa medida que pedem, a maioria ultrapassa de 1 a 5cm. Contanto que seja de material flexível e caiba embaixo do assento do avião, a chance de alguém querer checar o tamanho é mínima – você só precisa falar pelo telefone a medida exata que eles exigem, e essa informação pode ser encontrada no site da cia. aérea escolhida.

Os momentos mais tensos foram os da preparação até o voo. Gatos odeiam mudanças no ambiente, e se forem gatos de apartamento, como os meus, odeiam ainda mais sair de casa. Eles foram miando o caminho inteiro, e o Thorin ainda hiperventilou algumas vezes, me deixando mega preocupada.

No guichê da KLM, mais um stress: fomos informados que a empresa só permite 1 animal por setor da cabine, então eu e o Shiota não poderíamos voar um ao lado do outro. O funcionário do balcão disse que esta é uma regra antiga, então foi conversar com o comandante do avião (!) para tentar autorizar viajarmos juntos. Não só conseguimos assentos juntos, como conseguimos as últimas poltronas do avião que tinham apenas dois lugares ao invés de três. Score! /o/

Outro detalhe importante: passamos 1h no balcão do check-in para preparar os animais para o voo (etiquetar caixas de transporte com identificações e etc). Se você vai viajar com animais, CHEGUE MAIS CEDO. Escolhemos viajar dia 24/12 por ser um pouco mais tranquilo, mas ainda assim o voo estava lotado. Caso sua viagem seja para um destino mais cobiçado e em alta temporada, não pense duas vezes e chegue pelo menos 3h antes ao aeroporto com seus bichinhos. É ruim demais passar tanto tempo fora de casa com eles, mas é necessário.

O voo saía 21h10, e o embarque começava 1h antes. Pediram pra levarmos os gatinhos que voariam no porão para o check-in 15 minutos antes da liberação do embarque, assim eles não precisariam passar muito tempo na pista esperando para embarcar – evitando mais stress com o barulho e movimentação. Mais um ponto positivo para a equipe atenciosa da KLM. :)

Durante o voo

Levamos no avião o Jamie, o gatinho amarelo mega assustado, e a Lexie, que adoeceu alguns meses antes da viagem. O desespero do Jamie foi tanto que ele fez xixi duas vezes, uma chegando ao aeroporto e outra durante o voo. Por isso é essencial forrar as bolsas e caixas de transporte com tapetes higiênicos.

As primeiras 3h foram as mais complicadas, pois eles estavam muito assustados ainda e queriam ficar saindo da bolsa. Depois eles se conformaram, deitaram e deram uma sossegada. Durante o voo, que durava 12h (doooooooze intermináveis horas) levei-os 3x ao banheiro para ver se os tapetes higiênicos precisavam de troca, e também pra deixar eles andarem um pouco.

Como levar animais para a União Européia

Em 12h de voo passamos por duas turbulências chatas, sendo que uma delas demorou quase 10 minutos e fez a Lexie vomitar. Fora que meu coração ficou na mão só de pensar nos meus outros dois pequenos que estavam no porão. :/ Eles quase não miavam, só quando ficavam muito irritados por não poder sair da bolsa, mas ninguém além de mim e do Shiota ouvia.

Preciso dizer também que as comissárias de bordo da KLM são incríveis. Todas foram muito atenciosas, cuidadosas e preocupadas. A responsável pelo nosso corredor ia toda hora checar se os gatinhos estavam bem, se precisávamos de algo e ainda aproveitava para fazer um carinho neles. Em um certo momento ela nos viu tentando dar água e comida e veio oferecer um copo de leite – eles não estão acostumados a tomar, mas deram algumas lambidinhas.

Não permitiram tirar os animais das bolsas de transporte (para eles não fugirem e se enfiarem em algum buraco), mas eles podem ficar com a cabeça para fora. Todas as comissárias do fundo do avião me viram levando os gatos ao banheiro (dentro das bolsas) e não falaram absolutamente nada. Escolher uma cia. aérea com equipe preparada para atender passageiros e seus animais, com respeito e carinho, é fundamental para sua viagem ser o mais tranquila possível. Se algum dia tiver que mudar de novo, não vou pensar duas vezes antes de escolher a KLM.

O que podemos concluir dessa parte da viagem então, meus amigos? É um inferno. Caso o voo seja longo, leve as bolsas de transporte até o banheiro (preferencialmente nos períodos de menos uso pelos passageiros) e veja se o seu bichinho quer sair para esticar as patas. Aproveite para fazer muito carinho e reafirmar que está tudo bem, eles precisam disso.

Chegada e adaptação

Ao chegarmos no Schiphol, a primeira preocupação era buscar a Arya e o Thorin no setor “odd-sized bagages”. Eu fiquei com Jamie e Lexie perto da esteira de bagagem, recolhendo nossas malas, enquanto o Shiota foi buscar os pequenos ali perto. Nem preciso falar que foram dez minutos agonizantes, né? Mil coisas passam pela nossa cabeça. Quando ouvi os dois miando desesperadamente, quase chorei de alívio. Finalmente tinha acabado e estavam todos bem! ♡

Como levar animais para a União Européia

Tínhamos um taxi grande nos esperando na saída do aeroporto, que reservamos alguns dias antes da viagem, para facilitar o transporte dos gatinhos e não passar ainda mais tempo com eles na rua (e no frio!).

Fomos para casa, soltamos os quatro ao mesmo tempo no meio da sala e, surpreendendo nossas expectativas, a adaptação foi muito rápida. Imediatamente eles começaram a explorar a casa nova, com um pouco de receio, pedindo carinho toda hora e seguindo a gente em todos os cômodos. No primeiro dia o Thorinho chorou muito, de um jeito que nunca tínhamos ouvido. Ele ficava perto das malas e miava sofrido, como se quisesse dizer “gente, que lugar é esse? vamos pra casa!“. Todos dormiram conosco na primeira noite (geralmente eles se espalham pela casa e ficam só dois na cama), e três dias depois eles já estavam mais confortáveis, correndo e brincando.

Como o arranhador e brinquedos deles estavam vindo com a mudança e ainda não tinham chegado em Amsterdam, no dia seguinte fui à uma loja especializada para gatos comprar algumas coisas para distraí-los. Aproveitei para comprar também um difusor de Feliway, um produto mágico que libera um análogo sintético do feromônio facial felino, ajudando os gatos a se sentirem mais confortáveis e relaxados. Especialmente útil para situações de muito stress (mudanças, pessoas em casa, visitas ao veterinário). Não estava acreditando muito no produto, mas deu pra sentir uma boa diferença no comportamento deles. Tem a versão em spray também, mas o difusor é uma boa se você quer familiarizar os gatos a algum ambiente novo, pois o cheirinho (que não é perceptível para o nariz humano) se espalha pela casa.

Deixamos o Feliway ligado por 5 dias, intercalando entre a sala e o quarto. Uma semana depois da chegada, parecia que nada tinha acontecido. Eles ficaram ainda mais carinhosos do que antes!

Vê-los sentados no balcão da janela olhando passarinhos ou correndo pela sala nos fez ter certeza que a escolha, desde a mudança até trazê-los conosco, foi certa. Sinceramente? Sem a menor dúvida, eu teria ficado muito deprimida e decepcionada comigo mesma se tivesse mudado sem essas quatro bolotas de pelo.

Kattenhuis

Thorin e Arya curtindo a janela da casa nova

Checklist – Passo a passo para viajar com animais para a União Européia

  • Colocar o microchip subcutâneo padrão internacional (usamos Virbac)
  • Aplicar vacina anti-rábica após ou no dia seguinte da inserção do microchip
  • Após 30 dias da vacinação, realizar coleta para o exame de sorologia e levar ao laboratário autorizado pelo país de destino (no Brasil é o CCZ-Centro de Controle de Zoonoses). O resultado leva em média 25 dias para ficar pronto.
  • Início da quarentena de 90 dias (em casa mesmo) a partir da data da coleta de sangue para a sorologia
  • Durante a quarentena, adquira as caixas de transporte rígidas (para embarque porão ou carga viva) ou bolsas de transporte (cabine) e os tapetes higiênicos
  • Ao término da quarentena, entrar em contato com a Divisão de Defesa Agropecuária (DDA) mais próxima para agendar uma entrevista para concessão do CZI. No site da Vigiagro, imprima e preencha o Requerimento de Fiscalização para Animais de Companhia. * informação retirada diretamente do site da Vigiagro.
  • Até 3 dias antes da data agendada no aeroporto, volte ao seu veterinário e solicite um atestado de saúde (é válido apenas por três dias, então deve ser feito antes da consulta com o Ministério da Agricultura/DDA)
  • Na data agendada, vá ao posto do Min. da Agricultura dentro do aeroporto com toda a documentação (carteira de vacinação, resultado da sorologia e atestado de saúde) para obter o CZI.
  • Viaje até 10 dias após a emissão do CZI, pois depois deste período ele não será mais válido

Quando começamos esse processo encontramos poucas informações atualizadas na internet (e 99% falando de cachorros, quase nenhum relato com gatos), então realmente é o assunto que eu mais queria abordar sobre a mudança. A maioria das informações aqui é válida para viagens com gatos e cachorros, mas é sempre bom verificar com antecedência a política de entrada de animais no país para onde você vai e também a política de transporte de animais com as companhias aéreas, pois cada uma tem suas regras.

Os comentários estão abertos caso tenham alguma dúvida – e tem muita informação legal que as pessoas foram deixando, não deixem de dar uma olhada. O post foi imenso, mas espero ter ajudado um pouco e esclarecido algumas dúvidas sobre a burocracia para viajar com animais. Se você leu até o final meu muito muito muito obrigada! Espero poder ter ajudado um pouquinho a manter algumas famílias completas. ❤

FlyingPet Assessoria de Viagem para Pets | site
Tel.: (11) 5531-4458 / (11) 96969-4155 [whatsapp também]
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Vigiagro // Informações oficiais
Como levar seu cão ou gato para o exterior e como retornar com eles ao Brasil
Passaporte para cães e gatos: principais dúvidas
– Países que aceitam o Passaporte Brasileiro para Trânsito de Cães e Gatos em 2015: MERCOSUL (Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela), Colômbia, Gâmbia, Taiwan. A lista pode variar a qualquer momento, confira sempre o site
Requerimentos sanitários de cada país para receber cães e gatos estrangeiros (final da página)

Viajando com animais para o Reino Unido, vídeo da Grazi

UPDATE 2016: O único laboratório brasileiro autorizado pela União Europeia suspendeu a realização dos exames novamente desde o ano passado. A amostra de sangue agora deve ser enviada pelo veterinário para o laboratório mais próximo ao Brasil, que fica no Chile. Informação sobre o laboratório obtida neste link. O CCZ em São Paulo já voltou a realizar os exames (na última quinzena de abril). ;)